Frederico Campos Viana – HIDROBR
Por que os sistemas elétricos continuam falhando?
Sistemas elétricos ao redor do mundo compartilham uma característica intrigante: mesmo após décadas de conhecimento técnico acumulado e investimentos regulatórios substanciais, continuam a falhar de formas recorrentes e reconhecíveis. Em fevereiro de 2021, a Tempestade Uri provocou o colapso da rede ERCOT, no Texas, deixando mais de 4,5 milhões de residências sem energia, apesar de vulnerabilidades idênticas já terem sido identificadas após um evento similar em 2011 (FERC/NERC, 2021). Em abril de 2025, a Península Ibérica sofreu o maior apagão em duas décadas, afetando 47 milhões de pessoas e a investigação oficial concluiu que a causa não foi uma deficiência técnica da geração renovável, e sim barreiras regulatórias que impediram o uso, em tempo real, de 24 gigawatts de capacidade de controle de tensão já certificados e disponíveis no sistema (Morão, 2026).
Uma leitura possível para esse padrão é que a causa está a montante: quando o conhecimento técnico sobre operação de sistemas elétricos e o conhecimento sobre governança regulatória se desenvolvem em comunidades separadas com pouca interlocução formal entre elas, é razoável esperar que as soluções propostas por cada lado abrangem apenas metade do problema. Ferramentas tecnicamente sofisticadas, mas desenhadas sem considerar as condições institucionais para sua adoção, tendem a ficar inviáveis de implementar. Reformas de governança feitas sem diálogo com as restrições operacionais do sistema tendem a preservar as vulnerabilidades técnicas que deveriam resolver.
⚠ Um padrão que se repete
Nos sete casos reunidos neste Insight, cobrindo mais de duas décadas e quatro continentes, a falha nunca decorreu da ausência de conhecimento técnico ou de intenção institucional.
Em parte dos casos, a solução técnica já existia, mas faltou o mandato regulatório para exigi-la. Em outra parte, reformas de governança avançaram enquanto a capacidade técnica de operação se deteriorava.
O padrão é bidirecional: não importa qual dos dois lados domina o resultado é semelhante quando os dois não conversam entre si.
Duas culturas, um mesmo problema
Em cada um dos casos reunidos neste Insight, é possível identificar duas lógicas de atuação que raramente se encontram na prática: uma volta-se ao desempenho técnico dos sistemas, a outra à governança que os regula. Não se trata de simples diferença de ênfase: são formas distintas de entender o que é resiliência e o que significa aumentá-la.
| 🔧 Cultura Técnico-Operacional
Volta-se a desempenho, otimização e restauração de sistemas. Resiliência é tratada como uma propriedade do sistema: algo que se mede e se otimiza através de engenharia e planejamento operacional. |
🌍 Cultura Regulatória e Institucional
Volta-se a governança, marco regulatório, vulnerabilidade institucional e adaptação. Resiliência é tratada como um processo: algo que se constrói por meio de regras, incentivos e capacidade de gestão. |
| 🏛️ Por que a divisão persiste
As equipes técnicas e regulatórias costumam operar em silos organizacionais distintos, com carreiras, formações e critérios de avaliação próprios e pouca interface formal entre elas no dia a dia. |
⚡ Consequência prática
Ferramentas técnicas desenvolvidas sem base institucional tornam-se robustas, mas inviáveis de implementar. Reformas de governança feitas sem diálogo técnico mantêm as vulnerabilidades de operação intactas. |
Sete colapsos, quatro continentes, um mesmo padrão
Os casos abaixo, documentados por reguladores, painéis de investigação e literatura acadêmica publicada, ilustram esse padrão ao longo de mais de duas décadas. Em conjunto, mostram que o problema é bidirecional: falhas ocorrem tanto quando o lado técnico domina sem base institucional quanto quando o lado regulatório domina sem diálogo com as restrições operacionais do sistema.

Figura 1 – Linha do tempo de colapsos elétricos documentados em diferentes continentes (2001–2025).
| Caso | Lado que faltou | O que aconteceu |
| Texas, EUA (2021) | Mandato regulatório | A solução técnica existia, isolar termicamente quatro componentes-chave reduziria 67% dos apagões mas não havia mandato regulatório para exigi-la, apesar de vulnerabilidades idênticas terem sido identificadas em 2011. |
| Península Ibérica (2025) | Barreira regulatória | 24 GW de capacidade certificada de controle de tensão renovável estavam disponíveis, mas barreiras regulatórias impediram seu uso em tempo real durante o colapso. |
| Austrália do Sul (2016) | Regras de mercado | Parques eólicos foram instalados em larga escala sem exigências de serviços de estabilidade de rede; as regras de mercado não criavam incentivo para suporte de tensão sob estresse. |
| África do Sul (desde 2007) | Capacidade técnica | Sucessivas reformas de governança priorizaram a reestruturação institucional da Eskom, corroendo progressivamente a competência técnica necessária para manter a confiabilidade operacional. |
| China (2021) | Coordenação operacional | Metas ambientais de duplo controle foram impostas sem coordenação com a realidade operacional do sistema de geração, provocando uma crise elétrica em mais de 20 províncias. |
| Índia (2012) | Diálogo entre os dois lados | Havia capacidade de geração suficiente, mas estados excederam suas cotas de rede, faltaram ferramentas de monitoramento e usinas ignoraram exigências regulatórias no maior apagão já registrado, com 670 milhões de pessoas afetadas. |
| Brasil (2001 e além) | Diagnóstico estrutural | A crise do racionamento levou à construção de 42 GW de capacidade termelétrica como resposta técnica à vulnerabilidade hidrológica; em 2015, os reservatórios voltaram a níveis críticos sob nova seca, evidenciando que a exposição estrutural ao clima não havia sido endereçada. |
Onde a integração já acontece na prática
A raridade de projetos que integram bem as duas culturas não significa que a integração seja impossível apenas que, hoje, ela costuma acontecer por exceção, não por desenho deliberado. Na nossa leitura, existem domínios técnicos que, pela própria natureza do problema, obrigam o diálogo entre o lado técnico e o lado regulatório:
| MICRORREDES | Não é possível projetar uma microrrede sem tratar, ao mesmo tempo, do desempenho técnico e dos arranjos de governança comunitária que definem sua operação. |
| RECURSOS ENERGÉTICOS DISTRIBUÍDOS | Exigem otimização técnica no nível do sistema e, simultaneamente, marcos regulatórios que os transformem em ativos de resiliência — e não apenas investimentos isolados. |
| SISTEMAS CIBER-FÍSICOS | Demandam a integração entre segurança de redes — um problema técnico — e coordenação institucional e supervisão regulatória — um problema de governança. |
| PLANEJAMENTO COMUNITÁRIO DE ENERGIA | É, por natureza, um problema de desenho conjunto que nenhum dos dois lados consegue endereçar sozinho. |
Uma questão em aberto
Os casos reunidos aqui não são falhas de conhecimento técnico nem de boa vontade institucional são falhas de integração entre duas formas de olhar para o mesmo problema. Enquanto as equipes técnicas e regulatórias continuarem operando em silos, com pouca interface formal entre elas, é razoável esperar que as soluções resultantes carreguem a mesma fragmentação tecnicamente sofisticadas ou institucionalmente bem-intencionadas, mas raramente as duas coisas ao mesmo tempo.
Os domínios em que essa integração já é obrigatória na prática microrredes, recursos energéticos distribuídos, sistemas ciber-físicos e planejamento comunitário de energia sugerem que ela é possível quando a natureza do problema não deixa alternativa. A pergunta que fica é se essa integração vai continuar sendo exceção, ou se pode se tornar deliberada.
BUSBY, J. W. et al. Cascading risks: Understanding the 2021 winter blackout in Texas. Energy Research & Social Science, v. 77, 102106, 2021.
FERC/NERC. The February 2021 cold weather outages in Texas and the South Central United States. Federal Energy Regulatory Commission and North American Electric Reliability Corporation, 2021.
MORÃO, H. The 2025 Iberian Peninsula blackout: Lessons for modern power systems and policy implications. Energy Policy, 2026.
CHAUKE, N. A disaster of politics: South Africa’s electricity crisis and the erosion of technical capacity at Eskom. Energy Policy, 2024.
OECD. OECD Economic Surveys: South Africa 2025. OECD Publishing, 2025.
GOHLI, J. China’s 2021 electricity crisis: Causes and policy responses, 2022.
YAN, R.; MASOOD, N. A.; SAHA, T. K.; BAI, F.; GU, H. The anatomy of the 2016 South Australia blackout. IEEE Transactions on Power Systems, v. 33, n. 5, p. 5374–5388, 2018.
RAMPURKAR, V.; PENTAYYA, P.; MANGALVEDEKAR, H. A.; KAZI, F. Cascading failure analysis for Indian power grid. IEEE Transactions on Smart Grid, v. 7, n. 4, p. 1951–1960, 2016.
CERC (Central Electricity Regulatory Commission, India). Report on the grid disturbances on 30th and 31st July 2012. Government of India, Ministry of Power, 2012.
PEREIRA JR., A. O. et al. A review of the causes, impacts and solutions for electricity supply crises in Brazil. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 88, p. 215–227, 2018.
AVISO: Este documento tem caráter informativo e reúne, a partir de relatórios institucionais, painéis de investigação oficiais e literatura acadêmica de acesso público sobre os eventos citados, uma leitura da HIDROBR sobre padrões recorrentes de falha em sistemas elétricos. A interpretação, a estrutura e as conclusões apresentadas são de responsabilidade da HIDROBR. A HIDROBR recomenda que decisões estratégicas sejam tomadas com base em análises específicas para cada contexto operacional. Este Insight não substitui estudos técnicos detalhados.
Gerente de Meio Ambiente e Sustentabilidade – Sócio